22 de junho de 2007

Nova



Louve-se o lixo contemporâneo!
Tanto tempo (grilhões de mel).
Fecha-se o peito frente a forma atroz da planta fria.
Um minuto basta: é verão.


26 de maio de 2007

Pra viagem



Nosso amor é uma canção de bolso.
E você conta os postes com o dedo
- me faz rir e amar mais.
É simples e bonito.
Como se fosse um poeminha miúdo.


Escritura



Eis a palavra venenosa: Bem posto foi o que desarmado e fraco, pôde dobrar a moldura férrea da criação, e cavar no peito fundo de quem houver, tudo quanto for verdade e pavor.
Sendo então o prefácio dos cinco infernos, hei de enfrentá-lo com escudos e espadas de silêncio, enquanto a tarde se derrama em passarinhos.


Poema pra pai ser mais feliz



Sei que é nesse azul todo certo que paira suave a fortaleza,
a substância.
Seja neste inverno ou no porvir,
vai ser aí que vou me olhar - por entre a fresta clara e sóbria.
Prumo, rumo, pai.
Norte.


Alfaiataria



Não se pode combinar versos. Não são como o sapato e o cinto.
Cabe ao poeta apenas cuspí-los em preto e branco, para que vivam no degradê e morram verdes.
Eles são de todos e qualquer um, menos do poeta.


Ginásio



Já reparou na cômica simplicidade plana das coisas?
Nos atravessam infinitas essências, sem as quais sequer existiríamos.
Por isso afirmo: somos geométricos.
(E ponto!)


Raso



Antes que me atires esse vaso, recorda como foi nosso ontem - todos eles.
Procura no peito e nos botões da sua blusa branca, ou onde possa ter sobrado rastro dos meus labios (carne viciada no seu nome).
Põe à frente dos olhos o sabor magro das noites de sal e perfume.
Ou se quiser, esqueça.
Pouca coisa ainda vale, antes que me atires esse vaso.


24 de maio de 2007

Eterno: poema que se foi



Agora não posso mais segurar tuas mãos,
nem mesmo nos ombros carregar.
Terás que pisar o barro,
e na densa matéria soprar teus passos com leveza.
E quando olhares para o alto
buscando a verdade brincalhona,
lembra-te que é do barro que agora pisas que nascem as flores.
Flores que outrora, do alto dos meus ombros, tu colhias à tardinha
- quando eu ainda era pai, filho e poeta.
Agora sou apenas barro.


Barganha



Esgotei meu suor e minhas lágrimas.
Só me resta mesmo o sangue,
e esse não entrego.
Não pelo fio fino e desbotado naquela ultima prateleira,
que você (pálida, obsoleta)
insiste em chamar
O Nosso Amor.


Caco



É tanto cinza que nada escapa aos olhos de contraste - cinza muito branco.
Muitas coisas cruzam a linha da média consciência e eu, calmo e num quase-sorriso tímido, tento agrupá-las em um pacote de mínimo nexo. Vão.
É coisa de cabeça, de cansaço. Ou mesmo da alma quebrada em dois pedaços: nunca ao meio.
A gente sempre fica com a menor parte.


23 de maio de 2007

Nós



Eu alguém, você qualquer.
Eu tô indo, você vier.
Eu queria, você quiser.
Eu me posso, você puder.
Eu após, você até.
Eu chorando, você sequer.
Eu sou todo, você não é.
Eu menino: você mulher.


Caos



Céu limpo, vento suave - cheiro de amaciente, crianças sorrindo, ciranda, velhinhos simpáticos jogando migalhas aos pombos.
O que é meu amigo?
Provavelmente o Juízo Final desfarçado de domingo.


Acontecido



Ela se levantou,
limpou os joelhos
e as mãos muito brancas e pequenas.
Ajeitou com zelo e vaidade
o vestidinho verde claro.
E sem largar sequer
uma gota de sal e água
voou alto e explodiu!
Numa supernova de mini-sorrisos.


Down: de outros dias



Que toda a saudade despenque morro abaixo. (Queda surda, seca.)
E nascerá aos seus pés o lírio rasgado e calmo, que irá vomitar canções e sonetos de pura lembrança.
Lembrança de um dia bonito, que fosse antes um simples dia que todo um outono.


Crônica aguda



E mesmo que não nos passe pela cabeça, ou sequer cruze nossas visões - sentimentos, sopros ou vazios, um dia todos descobriremos que a avassaladora e crescente intensidade do fluxo da vida, é apenas um catalisador do fim.


12 de maio de 2007

Contínuo



Poesia é traço,
é pedra,
fruto e compasso.
Fração de passo.
Chão e capacho,
melado no tacho.
Réstia de rima: assim eu acho.


Ato hipótese



Agora que já entreguei minhas armas, quero saber porque me nagaste a flor do desacerto, enquanto penteavas os cabelos revoltos, na espera da paz incômoda que o sol de ontem te prometeu.
Cumpre seu desfecho. Veste o que quiser (mas que gangorre entre o divino e o apático).
E ao te ver trêmula e nua, eu saberei que o nexo da forma, vermelho, era no fim o espelho vazado de minha menor alma - que foi sempre sua.
Ou apenas mais um conto, uma fábula curta.


Presságio



Os verdadeiros homens são aqueles que ensinam a seus filhos que o amor é saber, pelo brilho dos olhos de uma mulher, se ela quer baunilha ou chocolate.


11 de maio de 2007

Dimensões

Fitei os olhos de um homem velho.
Era uma tarde qualquer nesses últimos invernos.
O homem andava roto, sujo. Nos cabelos algumas folhas do vento último, poucos afagos.
Muitas memórias.
A barba já cinza de derrotas. Sob seus olhos pendiam rugas: pareciam gritar o enredo preto que aos tornozelos se lhe arrastava.
Os mesmos olhos que fitei.
E como ignorassem todo o redor de hades e barro, aqueles olhos insistiam num azul arrogante, azul impossível que arrancava água dos meus.
E foi assim que, numa tarde qualquer nesses últimos invernos, um homem velho e sujo, de dentro dos olhos azuis, austeros, me chamou de filho.

Espelho



Acorda amor.
Vem ver aqui da janela quantas vidas
passam rápidas pelas ruas.
Vidas de vácuo, de peito fosco.
Te esquenta.
Te cala.
Me abraça que já já a gente desce.
E aí meu bem,
aí seremos nós a passar pelas janelas deles.
Vácuo, fosco, rápido:
Nós.