22 de setembro de 2009
Metáforas
Te amo como se amam as flores,
imóveis no breu da terra.
Como se amam firmamento e mar,
na fúria da tempestade.
Como se o meu coração revolto
não soubesse fazer mais nada.
É assim que te amo:
sóbrio, vasto.
Literal.
5 de agosto de 2009
Por inteiro
Nos dias de agosto, nevoeiro.
Bruma calma de condensar a voz;
frações de pouco tom.
Enquanto o peito se recolhe em nó, ao pé da cama,
velejam cores no carmim.
Enquanto o corpo se revolve só, e apenas ama.
Enquanto entrego mais de mim.
23 de julho de 2009
Feito à mão
Do azul silencioso
que me tira o sono e o jeito,
sinto falta ou saudade
- alvoroço no meu peito.
6 de julho de 2009
Mandamento
Bom é viver agora
tudo que morrerá em letra mais adiante.
Bom é saber que o tempo
que enterra as mágoas,
afoga lento nos ventos de despentear.
Navega mudo em qualquer lugar.
Bom é viver agora,
tudo que ventará.
16 de abril de 2009
Chave mestra
O que jaz a cada segundo,
é o que brota em cada vontade.
Florescer o amor profundo,
é viver e morrer de saudade.
17 de dezembro de 2008
Lembrete
Na sombra da figueira,
na calma da goteira.
Lembra desse tempo, amor,
na fresta da madeira.
Na voz da padroeira,
na chuva criadeira.
Tira a fantasia, amor,
no pó da quarta-feira.
Na brisa derradeira,
em tudo mais que queira,
leva do teu lado, amor,
meu verso e minha maneira.
3 de dezembro de 2008
Espelho d'água
De sorte foram ventos calmos
que nos visitaram no cais.
E a tempestade,
que cedo ou tarde tem lugar,
é o mesmo vento que outrora manso,
agora em fúria vira o mar.
Porque não há vida sem haver o pão.
Porque não há no mundo
amor amado em vão.
22 de novembro de 2008
De sobressalto
É o quinto que me coube da beleza.
É o brilho na bateia que eu,
criança,
seguro nos dedos.
É a vontade alva e risonha
de mais um carinho.
Mais um outono.
É um tanto mais
saudoso meu peito,
que nos sóis de timidez
me devolve pro seu calor.
17 de setembro de 2008
Vento de colina
Torno em solidão tudo o que é de praxe.
Tudo que carrega um contorno certo de ser diário, de ser rotina.
E gosto dessa morfose silenciosa.
Na verdade, sinto quase um prazer em estar sozinho,
em engolir em seco as tardes de ruído que, prostradas,
saltam ao abraço dos sozinhos como eu.
É um desfrutar de tristeza que abençoa o silêncio que carrego,
num não dividir, num não partilhar,
que com apreço alimento.
Não que seja propriamente uma forma polida de egoísmo,
não creio.
É que em cada não dizer,
em cada não expor,
floresce uma parcela de beleza.
É que conservo,
sempre,
tudo o que me parece arte.
7 de agosto de 2008
Rainha de Copas
Era rainha em tempos outros,
onde choviam gotas de remorso e cinzas.
Onde a terra era negra como a pele,
a pele que queimava na brasa torpe,
à mira dos muitos dedos.
E, se fora outrora, ouro e sedas,
era agora o silêncio da névoa gelada,
no dezembro descoberto.
Ela foi tudo que haveria de ser:
Rainha, bruxa, amante
e pó.
Maybe tomorrow
Há sempre aqueles dias mergulhados no calor cinza,
em que todas as brisas, seqüestradas,
se agaixam e se escondem dos rostos pálidos.
Em que os olhos não revelam mais nada.
Dias em que os nossos rabiscos se derramam desformes
por entre as calçadas.
Dias de esquecer.
Nesse quadro de velocidade pouca,
em que o esforço do sorriso trinca os dentes,
e a comédia infernal do tempo fecha suas cortinas,
é a hora de morrer.
Encerrar uma vida fosca, profetizar o recomeço.
Porque todo dia se nasce e morre,
num desespero sádico, ávido por algum sentido,
alguma diferença.
Porque assim se constrói a mecânica de quem se vê aqui,
onde os olhos não revelam mais nada.
23 de julho de 2008
Náutica
São portos e milhas,
cascos e quilhas,
brisa e tormento.
São velas e proa,
Sal e garoa,
firmamento.
Coração de marujo é assim.
Uma nau pra levar saudade,
ele, o mar,
e só.
3 de julho de 2008
Apontameto
E às coisas que toco e vejo, ouso dizer que já foram vistas e tocadas diversas outras vezes, em diversas outras vidas.
Paro, de súbito, em frente às portas marcadas de minhas mãos e me inclino a acreditar, numa certeza breve porém incisiva, serem as mesmas portas que ainda há pouco eu rabiscava, menino, com ceras coloridas.
Me abraça um hiato incômodo, como que se me subtraíssem alguns valiosos anos; as minhas crônicas cotidianas.
Deixo passar.
De certo é meu senso que fraqueja.
A velhas portas continuam vivas
e coloridas (sabe-se lá por quem).
10 de maio de 2008
Foz
Me sento às margens do seu rio calmo,
a contar as gotas que pela sombra dos meus pecados
se abraçam e se multiplicam em valsa.
É um rio claro e raso, e a beleza insuportável que tem,
amortece a vazão feroz com que me escapam
as sinceridades molhadas que colhi dos seus olhos,
enquanto chorávamos
nossos rios de gotas abraçadas.
27 de abril de 2008
Adjetivos e cotidianos
De toda maneira,
por mais que tentem abocanhar as verdades escorregadias
com explanações e justificativas afiadas,
não se poderá evitar a manobra crônica
das engrenagens encantadoras que,
nas terças ensolaradas,
nos umidecem de emoções caseiras.
6 de abril de 2008
Mínima
Como letras postas e letras pálidas no papel.
Como o escrito desperdiçado no vazio, o escrito feito para o vazio.
Como distintas e santificadas foram outras letras,
não menos pálidas que as de agora.
Ao alto prumo de quem escreve para o acaso formal e construído,
para o contexto cheio e forçosamente emocionado,
interponho minha letra vaga.
Me furto ao mérito de fazer brotar a água dos olhos.
Cedo às amenidades sem graça e pra elas entrego meus focos.
Às amenidades fortes e presentes,
aos pormenores incontestes e palpáveis,
aos detalhes.
Miro a composição dos detalhes;
e como neles se afoga todo o resto.
E como neles é fácil encontrar tudo mais de que se compõem
as farsas e trapaças de cada dia.
(Porque é preciso falsear, é preciso esquivar e enganar,
pra não engasgar com as verdades abrasivas
que engolimos todas as manhãs.)
28 de fevereiro de 2008
Notícia de horas mornas
Essas pessoas que passam
a passos violentos,
passam a passear
na porção solitária que lhes cabe
da velocidade-luz
(desse enorme passado coletivo).
Primam pela primavera
ainda que estanque,
ainda que ralinha sob os pés do passarinho.
Fitam e invejam a calmaria que floresce
nos bancos das praças que,
mesmo vazios,
ainda escutam o cochicho baixo
das pedras namoradeiras.
8 de fevereiro de 2008
Nos meus braços
Aí foi onde te deixaram,
nua e imóvel num altar de baixa madeira,
onde te possam ver os plebeus e as vielas vazias.
Fizeram de ti meu bem,
o fruto mascarado do legado silencioso e capital.
O desenho do pecado,
o fracasso dos impérios e dos calcanhares.
E se no sono tropeçares ultrajada e solitária,
vão te beliscar, leve na pele,
para que não te esqueças do teu crime original,
da beleza que carregas
e por ela mereceste o exílio.
Que por ela e para ela morreram homens,
em loucura e devaneio, cegos e atormentados
mirados na carne pura,
forma, mulher, seio.
Não tens culpa amor, é verdade.
Teu lugar não é aí, na comédia escandalosa
dessa farsa vergonhosa
que tramaram contra ti
(esses anjos invejosos).
6 de fevereiro de 2008
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