16 de dezembro de 2007

Nota plana



Em dias que não se sabe ao certo o ponto da verdade,
é melhor se encostar em qualquer parede,
qualquer paragem.
Apagar da vista e do peito qualquer espaço de lembrança,
qualquer presságio.
As ilhas são as mesmas e o medo observa tudo.
E antes que anoiteça há sempre um ar corrido que não se contenta
em agitar os cabelos e secar os olhos.
É mais que uma cor qualquer.
Esquenta a saudade que o sol empurra nessa nostalgia carinhosa
que aperta com força o peito cansado.
Não que esse dia se extenda a mais que a sua própria natureza fraca de dia certeiro,
mas claramente ele assina na alma
a passagem densa de um aperto comedido.

E outros virão.


Linhas que deitei pra ti



Minha sorte envegonhada,
foste a rosa entre os cravos,
foste a pétala na chuva
e o belo entre os bravos.

Seja o esforço dos acordes
a cantar o nosso fim,
seja a pele e a espada,
seja rei ou arlequim.

Nem o frio glacial
nem o tempo sorrateiro
vão lavar-me da memória
o calor do amor primeiro.

És o trigo e a primavera,
és ar frio da manhã,
a saída que prospera.
És o seio e a maçã.


14 de dezembro de 2007

Veritas veritas parit



- És o mais belo, és as luz por si só. Dela vieste e nela te prospera.
És parte da minha mais pura luz.

- Mas sois tu quem joga os dados. Quem dá as cartas.

- Guardai o que digo ó Luz:
Não te levanta contra mim, tu ainda és parte do meu jogo.

- Pois então não haverás de incomodar-te caso eu blefe ...


11 de dezembro de 2007

Calendário



Por sobre as pedras e a chuva
posso ver aquele rio.
E nas margens rodeadas, girassóis.
Nos meus braços e cabelos, seus lençóis.

É manhã de pouco sol,
brisa e silêncio.
E no alto meio-dia, fome.
Se sou eu quem lhe faz falta, tome.

É tarde alaranjada
fechando aquele outubro.
Pra que o dia não se engane, lua.
Pra acalmar a minha carne, a sua.

Anoiteceu querida.
Agora é tempo de esquentar as mãos,
enganar o inverno
e falar de amor.


Pré potência



Esse verso é descabido,
é nulo e vazio,
trincado.
É rabisco.

Na roupa é nu,
no gosto é cru.
É conversa fiada,
falso azul.

Esqueça esse verso
do qual eu me empresto.
Agora ele é só
parte do meu resto.


10 de dezembro de 2007

Conjecturas



E se quiser amar, me ame;
se quiser chorar, me chore;
e se quiser mais, reclame;
se estiver dodói, melhore.

E se quiser muito, faça;
se estiver com fome, massa;
e se for domingo, praça;
se for só saudade, abraça.

E se for avó, bença;
se for desespero, crença;
e se for paixão, beijo;
e se for preciso, pensa.

Se te pedem tudo, nega;
se te dão de tudo, cega;
e se for a flor, rega;
se sempre sonhou, pega.

Se for bailarina, roda;
se passar da conta, poda;
se você quiser, quero;
e se já passou, moda.

E se forem eles, bem;
se assim não for, amém;
e se for vontade, tem;
e se for você, meu bem.

Se a gente brincasse,
e eu te esperasse,
e feito ciranda
o tempo passasse;

Nessa brincadeira eu te tocaria,
sem te assustar,
pra te congelar
antes que acabasse.


Lenta



Todo pouco de vento que sopra na pele
carrega consigo alguma coisa de dentro.
De dentro da pele.
De dentro do peito.

Leva pra longe um pedaço, uma parcela,
Um outro sopro.
Tem qualquer coisa de viajeiro,
de mercador.

E espalha noutros cantos
a essência que recolhe.
Deixa cair em outras terras,
outros ventos.

É um propósito transparente
que gela a superfície calma
dos ombros.
Transporta.

Pra que se ache,
pra que se deixe.
Pra que faça morada,
nessas ou em outras mãos.


Assimetria



Mensurada e comedida
sobe a palavra goela acima,
e arranha e grita e pulsa.
E palavreia.

Começa onde freia,
onde samba e sapateia.
Passa, pesa, ajoelha
e ainda arde palavra.

Firma as asas dos meus aviões,
descabida, despedida.
Faz que vai e depois fica,
Fecha os olhos e acredita.

Sabe palavra,
sobe palavra.
Seja o passo
ou a navalha.

Fecha o céu,
deixa o seu.
És mais ela
e menos eu.


8 de dezembro de 2007

A minha verdade



Seria a beleza dos cantos de guerra,
dos contos de Tróia,
de outro sabor.

Seria a pureza e virtude dos novos,
que vão lado a lado,
que bebem a cor.

E se fomos um dia
sal e rochedo,
luz e pecado,
ódio e amor.

Foi pela certeza,
pela poesia,
de um dia voltarmos
a ser o que for.


Poema de número incerto



Tantas mais sejam as pedras,
mais serão as forças do coração alegre
a percorrer calado
a solidão do amor-verdade.

E mesmo a madeira
quente e ressonante
ouvirá o sopro dos meus verões.

Virá junho;
virá sonho,
virei aqui falar de tudo.

Ou não virei.
Ou não virá.

Conservo ainda a distância baixa e colorida,
a firmeza sonora
e um pouco de mim.


Desventura



Eu quero a infantilidade pulando na sala.
As gotas de carinho bem branco
me arrancando outras.

Quero a beleza de te dormir
e me acordar cansado.
De te preocupar, de fazer errado.

Eu quero viver o grande amor,
perder o grande amor,
e me achar, e me chorar e me sorrir
no colo do reencontro.

Eu quero silêncio e quero vapor.
Andar sufocado do leve sabor,
e saber que é facil colher o doce
dessa terra que é um pouco minha.

Quero estar perdido e tropeçar na insegurança,
abraçar o tempo, encontrar saída.
E cançar as mãos e suar o rosto.
Viver homem e morrer menino.


Poesia primeira



Se eu chorar, não fique triste.
Se ficar,
enxuga os olhos,
resiste.

Toda tristeza tem uma fresta de alegria,
toda alegria um pouco de dor,
toda dor,
um pouco de amor.

Pode ser que você chore,
que eu demore pra sair.
Mas quando aquela gota lhe cair do rosto ao colo,
não seja mágoa nem saudade.

Lembra como foi suave aquela dor que nos doeu,
deixa escorregar um sorriso medroso.
Deixa ser assim.

E vai ser sempre bonita e nossa aquela branca dor,
aquela calçada e a flor.
A pequena-grande história:
aquele seu e meu amor.


21 de novembro de 2007

Nitidez, nuances e bicicletas



O menino era novo ainda.
Descobria o mundo a cada passo, cada queda. O seu mundo.
Um mundo talvez grande às proporções da época (também suas).
Nos arranhões e machucados foi diminuindo as grandezas,
equiparando, esgotando hipóteses.
Inesgotável.

Tomou sorvete, soltou papagaio, quebrou dente, braço e espelho.
Teve azar e sorte; se apaixonou na escolinha.
Foi triste e feliz.

E cresceu como cresce todo menino.
Foi herói, foi bicho, foi medroso.
Foi Viramundo de Sabino.
Caiu algumas vezes. Várias vezes.
Curou os arranhões e machucados das mãos e joelhos,
e descobriu que eles doem menos que os arranhões da alma.
Machucou a alma alheia.
E a sua.

Brigou,
ouviu,
esperou,
tentou,
se desculpou,
se arrependeu,
se orgulhou.

Aprendeu que todo menino cresce;
cresce pra ser homem.
Cresceu homem.
E fez a barba,
descobriu a vida,
aproveitou a vida,
fez escola e trabalho.
Desconfiou da vida.

Ganhou amigos,
pegou estrada,
tomou chuva,
tomou cerveja,
perdeu amigos...

Hoje, o menino é esse.
Esse que toma menos sorvete que deveria;
que não solta mais papagaio (mas gostaria);
Percebeu que,
ainda homem, sente medo.
Ainda cai, se levanta, chora e ri.

E assim Viramundo,
assim o mundo virou.

Mas o menino que se sabe homem,
sustenta vivo no coração o velho sorriso fácil.
O sorriso que as nuvens velozes
não conseguiram carregar pra longe,
como fizeram
com os dentes-de-leite.


18 de novembro de 2007

À vontade



Ela vem,
fica um pouco mais...
me joga um daqueles sorrisos doces, brancos.
(daqueles que sobram quando a timidez vem)

E eu assim,
vencido,
deixo passar o tempo lento.

Afinal,
o amor já me levou.


Poesia rasteira



Vou e volto,
eu e só.

Vou,
volto,
nó.

Paro, fico.
Sou e não quero mais.

Vou, verso,
e fim.


Protesto rascunho



E ainda que acabem com as flores,
que cubram de pedras minhas dores;

Ainda que possam apagar
as preces soltas
e os restos de mar.

Ainda assim,
não serei tinta a contra-gosto.

Serei antes,
letrista anônimo no amadorismo cru,
que consensualista métrico de prateleira.


Outras constantes



A saudade é um caso longo.
É uma plataforma grande e vazia num domingo de sol fraco;
e o trem não vem.
E não dói pela intensidade com que atravessa o peito,
dói pela sutileza com que se esparrama.
É a incerteza da alma, a inquietude.
Petrifica o foco e emudece a pele.

Então,
quando se sente a falta e o peito encolhe,
é aí que se revela a falha do humano.
Não porque resvala em essências estanques ou falhas de caráter.
Não.
O defeito do homem é a ausência.
É a parte intocável que mais lhe trai e conforta
(o melhor defeito);
sabe que é ela a expressão do apreço e da dependência determinada.

A saudade é o que se pretende agora,
o que imprime o anseio.
É a busca antecipada do que a promessa pôs à frente,
longe da mão, longe do chão, longe.

Mas é assim que se conservam amores,
e imagens do que pôde e pode ser a potência da felicidade.
É dela, saudade, que brota e cresce o valor.
Mas esse é outro caso,
igualmente longo.


Idílio



Quando eu cair menino amor, não quero que deite ao meu lado.
Quero um sorriso, daqueles que enchem a alma.
Quero que chova pra que eu veja as gotas caírem da ponta do seu nariz.
Quero a terra nos dedos, o branco nos cabelos.
Sal e suor.

E no fim do dia eu me levanto homem,
e poderei sorrir.

Mas vou estender a mão,
quando você e a chuva caírem
da ponta do meu nariz.


Parênteses



É passo seco na noite clara,
o fato da desmesura.

É calor e frio no sopro curto;
vento e verão.

Tinta que seca logo
e logo seca se desfaz.

Pranto que rola calmo;
varanda, porto e cais.

É sempre um sorriso largo,
tanto,
e um pouco mais.


12 de novembro de 2007

Ensaio



À conta do coração magro
que passeava despreocupado,
comprou uma asa velha
e a outra, de emprestado.

E na chuva escura do fim de outono
passaram dias e dias calados,
pra que fosse no virar do sol
mais um anjo tímido, envergonhado.