17 de dezembro de 2010

Sátira póstuma



Pela pele tímida
varre o vento ártico,
cai o canto cítrico,
voa o véu apático.

Pende para o gótico,
pede pelo sádico,
roga em riso súbito
teu manto despótico.

Reza o rito bíblico,
bebe o berço báltico.
Goza o gosto cáustico
desse amor empírico.

Canta o canto lúdico,
Sente o sono láudano.
Vela o vinho pútrido,
reles e roto súdito,
deus, dragão, impávido.


Decúbito dorsal



Todo tempo cabe nesse quarto.
E tanta coisa cabe em minha alma
seca, envelhecida no tonel da calma,
servida crua no banquete farto.

Que minha alma seja então o parto,
ou seja a faca que atravessa o ventre, cega,
por cuja força o músculo entrega
o que se espera de uma alma prenhe.

E dentre tantas, minha alma fora
daquele corpo lúgubre, refarto,
ambiciando descansar agora
que todo tempo cabe nesse quarto.


9 de dezembro de 2010

Céu de dezembro



Quando a chuva traz o cheiro dela,
já não há mais tato.
É tudo olfato e saudade.
É tudo um tanto de vontade
escorrendo das mãos
que já não têm mais tato.
Porque é tudo olfato e saudade,
quando a chuva traz o cheiro dela.


Quarto andar



Do alto vejo o caminhar dos velhos.
Calmos a carregar os anos.
Mirando as esquinas, colhendo memórias.
E o sorriso fraterno que estampam na face
consome a loucura dos dias de sol.
Sejamos como velhos vistos do alto.
Sejamos, apenas.


16 de novembro de 2010

Epitáfio chantagista



Pela faca que na carne cabe,
minha íntima verdade é crua.
E antes que isso tudo acabe,
ainda saberão da sua.


Ensaio do simples



Eis a graça de sofrer sozinho:
Não se ocupa o coração alheio
nem se incomoda o silêncio vizinho.


Procedência



Quanta poesia barata!
Quanta necessidade...
Quanto tempo ainda temos
até acharem amor de verdade?


Ábaco

Longe da verdade
que o tempo alimentou
Perto da saudade
onde tudo começou.

Diante da distância
navegada pela alma,
os olhos se ocupam
de contar o que sobrou.

Tempo de te ver



Vejo as horas no relógio ao longe.
É quase tempo de ter ver e minha alma ri.
Nada é tão claro que me leve os olhos,
que me lave a vontade de agora.
E é certo como o peso da virtude,
é certeiro como o gosto do pecado.
É viver e morrer no silêncio das horas
que mesmo no relógio ao longe
não me deixam ficar do seu lado.


6 de novembro de 2010

Volúvel sabor



A felicidade é um buraco raso,
coberto de sol,
cavado a mão.

Fica doze horas cheio,
outras doze horas
não.


Poema mudo



A bem da verdade os corações têm pressa.
E quando o pudor silencia a garganta,
as vozes escondem
o que o corpo confessa.


3 de novembro de 2010

E ponto



Que vida é essa que não se assenta?
Que não se acalma, não se contenta?
Que vida é essa em que nos é dado
olhar pra frente e ver o próprio rabo.
Pagar o preço de sete pecados,
e tantos outros mais?
Essa, meu amigo,
é a vida que tens.


A busca



No tempo que sobra antes do delírio.
Na paz que repousa dentro do martírio.
Procuraram em todos os cantos.
Procuraram tanto que não me assusta
se algum dia acabarem achando.


Embaralhado



Os mortos propagam silêncio.
Os vivos propagam o tédio.
O óbvio desafia o senso e eu,
que nada propago,
sou mais um dois
de paus em
pedaços.


Meio-minha meia-lua



Impávida, transcendente, silenciosa
como um corte lento e linear.
Eis que ascendeu ao céu mais alto,
vagarosa e prepotente,
derramando o tom da tarde.
E de nada adiantou.


O engano de Hobbes



O mundo já não é mais meu.
Agora, o nada que sobrou do mundo é o que conforta os lobos.
Os novos guerreiam tetas de carne materna.
Os velhos, engolindo a nata que lhes desce a glote,
apenas se abraçam.


25 de outubro de 2010

Jogo de azar



Perdi a letra no vão da vontade.
Como disseram dois milhões de vezes
as vozes violentas nos últimos meses,
o meu inteiro já virou metade.
No vento cítrico e sem piedade,
perdi não só a letra mas também a rima.
Desaprendi o que não se ensina,
e por mentira ou por qualquer verdade,
como quem lembra a carne que já não palpita,
como quem troca o verbo pela santidade,
foi que eu fiquei como já não se fica.
E só perdi porque sou perdedor.
Porque atravesso longe da saudade
e perco os dias a buscar o amor.


16 de agosto de 2010

No início



Havia o tempo e todo o resto.
E do tempo fez-se tudo que coubesse no passado.
Quanto ao resto: que dissesse
outro verso amarrotado.


1 de julho de 2010

Têmpera



Quem sabe agora a dor que me visita o peito
possa renascer em canto, alegria ou pranto.
Derradeiro pulso do maior tormento.

E a nova forma despontar no solo,
apanhar no colo a solidão do tempo.
Me lançar nos olhos todas as cores.

Sentirei então na carne os velhos sabores
de forjar no ferro, no fogo e no vento
o mais breve alento dos longos amores.


17 de junho de 2010

Angeli



O que é seu e é divino,
e me conforta,
encerra nos olhos o açúcar de sentir
o amor subjugando o peito.
E faz te amar agora, ontem e amanhã.
E faz beijar seus lábios, postas de maçã.
Porque é divino...
E ainda assim é seu.


5 de abril de 2010

O outro lado seu



Segura em minhas mãos
e entrega o medo,
que não há no mundo
quem te goste mais.

Aprende que eu sou
o que te quer melhor.
Aprende que eu sou
o outro lado seu.


22 de fevereiro de 2010

Fevereiro em Roterdã



Toda simetria, que no devaneio encerra
o essencial digladiar humano,
irrevogavelmente cairá por terra
frente à pálida luz do desengano.


19 de janeiro de 2010

Estrofe maior



Sempre haverá dias de sol
a colorir os dias de medo.
Não há nada de novo
- não há nenhum segredo.


Poesia de Sade



Tenham dó do poeta, ó almas avarentas.
Ele que do mais tenebroso pranto subtrai o magma
que vos queima os olhos.
Vós que vos alegrais estridentes,
suspirantes e maravilhados,
tende piedade do arlequim amargo,
que de pena em punho vomita versos de samaritana dor.
Silenciai-vos ante a letra rude que vos bate à face,
pois que esta é a comiseração plena que o conservará poeta.


4 de janeiro de 2010

Esfinge em branco e preto



Pela sorte que me vale,
seja tímida ou extensa,
eis aqui o que se pensa
do enigma do amor:

Não há tempo que o cale
nem palavra que o vença.
Por afago ou por ofensa,
sobrepor-se-á à dor.


Marina



Do azul perpétuo reviveu-se o pranto,
que da pedra rasa de amarelo manto
me carrega para o cais.

Da primeira chuva que recolhe o santo,
derramada morna e com singelo canto
derradeira que me leva e traz,

Sacrifica tanto
do salgado encanto
que de mais a mais
já não satisfaz.


18 de dezembro de 2009

Pequena



Guardo aquele sapatinho,
e tudo quanto mais ficou.

Voa minha passarinha...

Voa que o verão é seu.
E eu também sou.


Como queira



Faz de mim o seu refém, seu cativo,
faz do verbo imperativo,
que a minha carne
vem deserta de outra voz.

Faz de mim a tua foz,
água de força veloz.
Que o meu medo já não vira o dia.

Faz de mim o que queria
pelo tempo que quiser,
que de novo e mais um dia
me farei sua mulher.


14 de dezembro de 2009

Enquanto ele dormia



Defronte o espelho
e com delicadeza irretocável,
suspendeu os seios
conferindo-lhes a composição.
Experimentava ali,
não mais que a própria essência.
Embora reconhecesse no corpo
a presença dos anos,
de alma limpa tornou-se à cama.
E sorriu de olhos fechados,
pois sabia que era amada.


De mãos dadas



Já não há mais tempo contra tudo que derrama
dos olhos negros de afastar o dia.
É tudo um jogo de cartas marcadas,
outra valsa de almas rasgadas.

De toda palidez que atravessa os pelos e os planos,
e arremessa na garganta uma saudade,
plena e vasta,
e saborosa.

Emerge forte e luminosa
na ironia de outra tarde,
repleta de tudo que se evitava,
rompendo o verão com desespero.

Crescendo e se multiplicando,
sem pudor ou compaixão,
no frenesi silencioso do vazio.

E me consome,
desde o medo até o azul
que me revela.

É sólida e imediata, abjeta saudade
que quanto mais relego,
tanto mais se posta em meu encalço.

E me absorve
e me permeia,
exposta e manifesta,
nua, austera.

E me elege
o foco instransponível
do seu dantesco ofício.
Tem lugar em meu lençol.

E assim me deixa ser,
mais uma vez,
parcela seca da saudade
que por certo me compõe.


11 de dezembro de 2009

Sétima vida



Vivo da noite

porque o dia já não me basta.
Vivo do que se fez em breu e,
como que por magia me subtrai o tempo.
Por todas as ruas na madrugada

vivo.

E mesmo que amanheça em mim
todo sol de fevereiro,
fechando os olhos viverei da noite.

A noite densa que me completa.


Soneto da confidência



Antes que me encontre a morte
ou quem sabe a sombra do esquecimento,
deito-lhe essa letra morna, sórdida ao sabor do vento.
Lívida, por tanto tempo abraçada à minha própria sorte.

É que de muito procurar no amor
calor ou coisa que o valha,
o que no peito agora em fogo talha
é a verdade que carrego em mim.

Não houve pela vida
toda, um momento sequer
que no teu lábio de sabor mulher
não me encontrasse o que eu buscava enfim.


Poema pra dizer o quanto



De todo amarelo vivo
que te veste o colo
é que viverei.
E pela fruta que
perfuma a boca,
renunciarei a luz.
Me sei o anjo decaído
da beleza que te envolve.


Antes das seis



Vem ver o dia que desponta agora,
calmo e silencioso.
Mas não debruça na janela, meu amor,
que o sol te inveja
a luz dos olhos.


11 de novembro de 2009

Meu novembro



Já não escrevo mais do amor.
Escrevo do que sobra,
depois que ele
acontece.


Pele



Sinto falta dela toda,
e dos olhos.
Amêndoas
que me fazem rir.
Dela,
tudo é vendaval.

Fisiologia



Ninguém ama,
efetivamente,
com o coração
(contrassenso anatômico).
O amor não é sangue.
O amor,
é tolerância.

Em vão



Quis um poema de amor perfeito:
absoluto engano.
A perfeição não cabe no amor.
E se coubesse,
não dava verso.

Duas horas



A cidade não se apaga nunca.
Apenas permanece, imóvel, intacta,
com jeito de menina triste.
Me revela um silêncio
que ninguém jamais ousou.
Que ninguém suporta sozinho.
A cidade é sozinha.
Sólida e muda,
mergulhada nas luzes, estática.
Intransponível.
E me desaba nos ombros a noite
que desamanhece posta,
quente e irreversível.
A noite da cidade nada quer,
nada entrega.
Apenas se recosta,
muda ao meu lado.
A cidade me conhece.

À procura



Perdi meu jeito, minha prosa,
minha trilha.
Larguei na pressa minha brasa,
minha sina, minha ilha.
Seja como queira,
rasa e sem pudor.
A alegria do poeta
é a medida da dor.

Visceral



A vida para além do amor
não merece ser vivida.
O peito para além da dor
é só carne contraída.

10 de novembro de 2009

Incontroverso (ou Da verdade que me tem)



Sou todo poesia,
tudo que me fez o tempo.
Vem ver o que te fiz aqui,
nas minhas mãos
de percorrer estrelas.
Vem ver o que é teu
e mora em mim.
Demora não.


9 de novembro de 2009

Boa noite amigo



Escrevo-lhe por nada.
Aliás, mentira minha...

Escrevo porque sinto - hoje como sempre,
um certo sentimento de desarranjo.
Em verdade, uma saudade de ter com meus amigos,
de vê-los e abraçá-los com verdadeiro afeto e alegria,
e roubar-lhes, como de praxe,
tudo aquilo que me alimenta a alma.

Embora saiba que também o sabes,
tenho por bem deitar novas linhas para dizer
do que tantas outras vezes foi dito sem palavras,
apenas com olhares, sorrisos,
gargalhadas e, por eventualidade,
algumas lágrimas.

É que hoje, mais uma vez
das incontáveis que vieram e virão,
sinto no peito o vácuo do tempo de solidão.
Não porque tenham meus amigos me esquecido,
ou porque se esmoreçam
na bruma da memória.

De fato, me sei um eterno carente de almas de luz.
Tenho a sólida certeza que,
ainda que além do alcance dos meus braços,
estão todos eles em roda e festa
no meu peito e na memória.

E apesar do silêncio,
saibam todos os meus amigos
que os carrego comigo, sempre,
com a candura e leveza
que me emprestam e que,
por necessidade,
faço de morada.

Amo-os todos,
com afinco e zelo.

3 de novembro de 2009

Diagrama



Deixo minhas horas nos teus sorrisos,
tantos e tão vivos.
Todos meus em segredo.
Traço meus planos indiscretos,
mal armados.
Rabiscos e cálculos,
tudo que sei vão.
Lanço-me ao mar como canoa
pálida e vigorosa.
Sóbrio de amor.


Tom sobre tom



De toda cor fez-se o matiz
que toca os lábios em fervura,
dança, rodopia e pula,
me amando por um triz.

E de sabor o verso veste,
tanto sal e pecado,
que mesmo o mais amado,
chora a solidão agreste.

Bem como outro novo tempo,
nas esquinas de uma outra vida,
cálido e vagaroso vento.

Bem como meu sutil tormento,
nas pétalas das margaridas,
tímido, amarelo e lento.

22 de setembro de 2009

Metáforas



Te amo como se amam as flores,
imóveis no breu da terra.

Como se amam firmamento e mar,
na fúria da tempestade.

Como se o meu coração revolto
não soubesse fazer mais nada.

É assim que te amo:
sóbrio, vasto.
Literal.


5 de agosto de 2009

Por inteiro



Nos dias de agosto, nevoeiro.
Bruma calma de condensar a voz;
frações de pouco tom.

Enquanto o peito se recolhe em nó, ao pé da cama,
velejam cores no carmim.
Enquanto o corpo se revolve só, e apenas ama.

Enquanto entrego mais de mim.

23 de julho de 2009

Feito à mão



Do azul silencioso
que me tira o sono e o jeito,
sinto falta ou saudade
- alvoroço no meu peito.

6 de julho de 2009

Mandamento



Bom é viver agora
tudo que morrerá em letra mais adiante.
Bom é saber que o tempo
que enterra as mágoas,
afoga lento nos ventos de despentear.
Navega mudo em qualquer lugar.
Bom é viver agora,
tudo que ventará.

16 de abril de 2009

Chave mestra



O que jaz a cada segundo,
é o que brota em cada vontade.
Florescer o amor profundo,
é viver e morrer de saudade.


17 de dezembro de 2008

Lembrete



Na sombra da figueira,
na calma da goteira.
Lembra desse tempo, amor,
na fresta da madeira.

Na voz da padroeira,
na chuva criadeira.
Tira a fantasia, amor,
no pó da quarta-feira.

Na brisa derradeira,
em tudo mais que queira,
leva do teu lado, amor,
meu verso e minha maneira.


3 de dezembro de 2008

Espelho d'água



De sorte foram ventos calmos
que nos visitaram no cais.
E a tempestade,
que cedo ou tarde tem lugar,
é o mesmo vento que outrora manso,
agora em fúria vira o mar.
Porque não há vida sem haver o pão.
Porque não há no mundo
amor amado em vão.


22 de novembro de 2008

De sobressalto



É o quinto que me coube da beleza.
É o brilho na bateia que eu,
criança,
seguro nos dedos.
É a vontade alva e risonha
de mais um carinho.
Mais um outono.
É um tanto mais
saudoso meu peito,
que nos sóis de timidez
me devolve pro seu calor.


17 de setembro de 2008

Vento de colina



Torno em solidão tudo o que é de praxe.
Tudo que carrega um contorno certo de ser diário, de ser rotina.
E gosto dessa morfose silenciosa.
Na verdade, sinto quase um prazer em estar sozinho,
em engolir em seco as tardes de ruído que, prostradas,
saltam ao abraço dos sozinhos como eu.
É um desfrutar de tristeza que abençoa o silêncio que carrego,
num não dividir, num não partilhar,
que com apreço alimento.
Não que seja propriamente uma forma polida de egoísmo,
não creio.
É que em cada não dizer,
em cada não expor,
floresce uma parcela de beleza.
É que conservo,
sempre,
tudo o que me parece arte.


7 de agosto de 2008

Rainha de Copas



Era rainha em tempos outros,
onde choviam gotas de remorso e cinzas.
Onde a terra era negra como a pele,
a pele que queimava na brasa torpe,
à mira dos muitos dedos.
E, se fora outrora, ouro e sedas,
era agora o silêncio da névoa gelada,
no dezembro descoberto.
Ela foi tudo que haveria de ser:
Rainha, bruxa, amante
e pó.


Maybe tomorrow



Há sempre aqueles dias mergulhados no calor cinza,
em que todas as brisas, seqüestradas,
se agaixam e se escondem dos rostos pálidos.
Em que os olhos não revelam mais nada.
Dias em que os nossos rabiscos se derramam desformes
por entre as calçadas.
Dias de esquecer.
Nesse quadro de velocidade pouca,
em que o esforço do sorriso trinca os dentes,
e a comédia infernal do tempo fecha suas cortinas,
é a hora de morrer.
Encerrar uma vida fosca, profetizar o recomeço.
Porque todo dia se nasce e morre,
num desespero sádico, ávido por algum sentido,
alguma diferença.
Porque assim se constrói a mecânica de quem se vê aqui,
onde os olhos não revelam mais nada.


23 de julho de 2008

Náutica



São portos e milhas,
cascos e quilhas,
brisa e tormento.

São velas e proa,
Sal e garoa,
firmamento.

Coração de marujo é assim.
Uma nau pra levar saudade,
ele, o mar,
e só.


Delicadeza do caos



Ora, os meus demônios são meus!
Os analistas que encontrem os deles...


3 de julho de 2008

Apontameto



E às coisas que toco e vejo, ouso dizer que já foram vistas e tocadas diversas outras vezes, em diversas outras vidas.
Paro, de súbito, em frente às portas marcadas de minhas mãos e me inclino a acreditar, numa certeza breve porém incisiva, serem as mesmas portas que ainda há pouco eu rabiscava, menino, com ceras coloridas.
Me abraça um hiato incômodo, como que se me subtraíssem alguns valiosos anos; as minhas crônicas cotidianas.
Deixo passar.
De certo é meu senso que fraqueja.
A velhas portas continuam vivas
e coloridas (sabe-se lá por quem).


10 de maio de 2008

Foz



Me sento às margens do seu rio calmo,
a contar as gotas que pela sombra dos meus pecados
se abraçam e se multiplicam em valsa.
É um rio claro e raso, e a beleza insuportável que tem,
amortece a vazão feroz com que me escapam
as sinceridades molhadas que colhi dos seus olhos,
enquanto chorávamos
nossos rios de gotas abraçadas.


27 de abril de 2008

Adjetivos e cotidianos



De toda maneira,
por mais que tentem abocanhar as verdades escorregadias
com explanações e justificativas afiadas,
não se poderá evitar a manobra crônica
das engrenagens encantadoras que,
nas terças ensolaradas,
nos umidecem de emoções caseiras.


6 de abril de 2008

Mínima



Como letras postas e letras pálidas no papel.
Como o escrito desperdiçado no vazio, o escrito feito para o vazio.
Como distintas e santificadas foram outras letras,
não menos pálidas que as de agora.
Ao alto prumo de quem escreve para o acaso formal e construído,
para o contexto cheio e forçosamente emocionado,
interponho minha letra vaga.
Me furto ao mérito de fazer brotar a água dos olhos.
Cedo às amenidades sem graça e pra elas entrego meus focos.
Às amenidades fortes e presentes,
aos pormenores incontestes e palpáveis,
aos detalhes.
Miro a composição dos detalhes;
e como neles se afoga todo o resto.
E como neles é fácil encontrar tudo mais de que se compõem
as farsas e trapaças de cada dia.
(Porque é preciso falsear, é preciso esquivar e enganar,
pra não engasgar com as verdades abrasivas
que engolimos todas as manhãs.)


28 de fevereiro de 2008

Notícia de horas mornas



Essas pessoas que passam
a passos violentos,
passam a passear
na porção solitária que lhes cabe
da velocidade-luz
(desse enorme passado coletivo).
Primam pela primavera
ainda que estanque,
ainda que ralinha sob os pés do passarinho.
Fitam e invejam a calmaria que floresce
nos bancos das praças que,
mesmo vazios,
ainda escutam o cochicho baixo
das pedras namoradeiras.


8 de fevereiro de 2008

Nos meus braços



Aí foi onde te deixaram,
nua e imóvel num altar de baixa madeira,
onde te possam ver os plebeus e as vielas vazias.
Fizeram de ti meu bem,
o fruto mascarado do legado silencioso e capital.
O desenho do pecado,
o fracasso dos impérios e dos calcanhares.
E se no sono tropeçares ultrajada e solitária,
vão te beliscar, leve na pele,
para que não te esqueças do teu crime original,
da beleza que carregas
e por ela mereceste o exílio.
Que por ela e para ela morreram homens,
em loucura e devaneio, cegos e atormentados
mirados na carne pura,
forma, mulher, seio.
Não tens culpa amor, é verdade.
Teu lugar não é aí, na comédia escandalosa
dessa farsa vergonhosa
que tramaram contra ti
(esses anjos invejosos).


6 de fevereiro de 2008

Altruísmo



Entre você e eu,
é melhor preferirmos qualquer coisa
que não seja nós mesmos.


5 de fevereiro de 2008

Nove milímetros



Quantas vezes olhei e resolvi que aquele cenário,
aquela moldura,
ficariam intocados.
Seriam diamantes na retina.

E mesmo ali, decidi parar o tempo,
como se ao comando da minha voz tudo se fizesse pedra,
tudo parasse em vidro imóvel,
no segundo que eu quis.

Nesses muitos momentos
em que me capturei Cronos frustrado;
nesses mesmos momentos
em estátuas prometidos...

É aí, no sebressalto quase assustador
em que tropeçam esses ditos momentos
quando se vão,
que se reforça a idéia incisiva de que
ainda é impossivel mensurar
o calibre das amenidades.


Figura de linguagem



Os pormenores da vida são fragmentos da alma.
Metaforicamente.


17 de janeiro de 2008

Conto de título dispensável



Já passava das onze
quando ela se deu conta do fim do cigarro,
do calor incômodo
que subia pelos dedos estáticos.
Dedos de mulher,
que naquele junho
chegado quase que por surpresa,
refletiam uma leveza,
uma outra saudade.
Como quem faz que se levanta,
ela, num esforço mensurado e comedido,
leva ao cinzeiro já visitado,
outra réstia da companhia silenciosa
que lhe fazia sala.
Não carregava porém, nos olhos
aquela calmaria simbólica,
dos que fingem o desconforto essencial
recém causado pela partida,
pelo final,
mas uma claridade casuística
esquecida pela verdade que,
agora longe,
há algumas horas
ainda lhe tocava a nuca.
E escorria
aos cantos da boca contornada,
uma linha engraçada de perfeição,
que imprimia no rabisco feminino da face
uma vergonha interiorana,
sedutora.
Timidez que brilhava longe,
como que o próprio Deus quisesse ver,
com olhos de quem se sabe homem,
a beleza que tem
um sorriso de mulher.


Dentre o ventre



É a simplicidade e o caos
ou o que ela quiser.

É o que se fez em ferro
entre desejo e fé.

O que se fez em seio
e sinceridade,

e se vestiu de calma
e ansiedade.

Que se apossou de tudo
e se chamou mulher.


13 de janeiro de 2008

Inominado



E as horas mal orientadas que nos navegaram
vão ficar pra trás, feito quem perde o trem.
Frio que vai além.
É o que coube e o que a alma pôde suportar.
E todos os espinhos ditos
entre a água e o caos menor,
todos os vidros que espalharam no chão
enquanto dormíamos,
serão veludo silencioso
na precisão de quem não se importa
e apenas ama.


3 de janeiro de 2008

Bamba de gaveta



Quis um samba carinhoso
pra te dar em homenagem,
quis um samba de garagem
que rolasse devagar.

Quis que fosse alegoria,
pra você porta-bandeira
se vestir de ouro inteira,
qual laranja no pomar.

Quis então falar de amor,
mas foi forte o nevoeiro
e quebrou o meu pandeiro,
ficou nada no lugar.

Quarta-feira despedida,
caio morto de cansaço
na beirada do terraço,
coração de batucar.

Nesse meu samba chorão,
não vai ser o nevoeiro
nem a falta do pandeiro.
Pra cuíca reclamar.

A mulata do cordão,
quarta-feira quero ver
com os olhos de querer:
carnaval há de voltar.


2 de janeiro de 2008

A orquídea e o titã



Na sacada vento frio, anunciação de abril.
No abril a solidão é palpavel e densa,
e amortece o corte lento
da cidade lá embaixo.
Daqui de cima, euforia silenciosa;
luz de movimento mudo.

No abril tudo corre como cinema antigo,
cinema lento,
morfina colorida.
Passo a passo o dia escorre dum velho vinil qualquer.
Um vinil sequer.
Conjugação engatilhada no próximo copo.

No abril é sempre um tanto frio,
um tanto só.
Um noir sombreado, um olhar de fraca fixação;
branco e batom.
Desbotado nevoeiro na métrica casuística
que os sonhos escondem.

No abril de pouco cheiro,
arrastado e singular,
distoante e arredio.
Canto quieto e paralelo,
acidez e brio.

E a porta gris cerrada
em que se fecha
belo e vil,
nem com cruz nem com espada,
nenhum outro mês
abriu.


28 de dezembro de 2007

Porta-retrato



Como quando não se tem alguém
e não se quer sentir a falta,
ou lembrar o desespero
de querer aflito
a calmaria de ser junto;

Como esse cigarro que eu fumo calado,
na ambição irremediável
de querer alguém do lado,
pra dividir nenhuma palavra
e misturar um sorriso no vazio mudo;

Como se nao fosse frio demais
o que o olho derrama
em fogo de conforto,
que ainda fresco na pele
esvazia o ar;

É como se mais uma vez,
tropeçasse na falta bruta que faz
alguém do meu lado,
dividindo o silêncio e a aridez
desse cigarro que eu fumo calado.


25 de dezembro de 2007

Jardim de litoral



De passagem pelo sol,
vai sem porto nem farol.
Embrulhado na mochila
um cigarro e um lençol.

O sorriso ainda largo,
espalhado viajante.
Alma farta, claridade,
esboço (navio mercante).

Feito a onda violenta
que me solda junto ao cais,
seja a pétala que molda
a verdade que te traz.


18 de dezembro de 2007

A duas quadras



Se fui farto da franqueza
Que outrora procurei,
Firmo franco na clareza
Fraternal que fracassei.

Se me sou no fruto fraco
Do que pude e poderei,
Serei outro no buraco
Fundo e frio que cavei.


Poesia de base



Ando a procurar um certo ponto passageiro
entre o claro e o escuro.
Um certo ponto cinza
calibrado de sussuros.

Caminhei pelos acasos
encerrados nas equinas,
esquinas de qualquer lugar,
de qualquer eu.

E floresceram margaridas isoladas
nas solas dos meus pés,
os pés que pisaram o vidro
e o vendaval de desacertos.

E mesmo no transposto
percurso amadurecido
desceram círculos contornados
na miragem que eu também não li.

Não me fugirá mais esse ponto
que quanto mais procuro e quero ponto,
tanto mais me engana
nessa fábula linear.


17 de dezembro de 2007

Confessionário



Não escrevo pras coisas que vejo
ou pras que me cegam.
Pelas que me escondem,
nem pras que revelam.

Escrevo sim, pras coisas novas.
Novas em cheiro e sabor.
Claras na forma
e nuas na cor.

Não me atreveria a rabiscar
o tom das coisas reais,
nem a roubar-lhes a palavra,
o verbo cru.

Seria pretensão me fingir poeta,
me querer ladrão.
Ser anfitrião
dessa letra quieta.


16 de dezembro de 2007

Álibi



Faço caso
e crio clima.
Faço letra,
prosa e rima.

Minha obra
não é prima,
minha sobra
fica acima.

Pra quem acha que eu nao ia,
mostro o peito e fecho os olhos.
Faço tipo
e poesia.


Spotlight



Vou levantar numa manhã qualquer
e acalmar as minhas órbitas.
E preparar as minhas mãos
e me entornar no seu acaso.

Vou contornar as linhas claras
que te escorrerm do pescoço.
Percorrer com calma
os diamantes revelados.

Vou brincar nos seus cabelos longos,
nos braços delicados.
Olhos fortes,
Mediterrâneo.

A claridade que te cobre
me atravessará os olhos,
e como um bobo desastrado,
dou meu riso e meu pecado.


Novo ontem



Servi tua comida,
servi à tua vida,
cheguei a duvidar
que fechasse a ferida.

Fiz poemas e alguns planos,
fui vigário e fui cigano.
Fui pássaro sozinho
e fiz sacro o nosso engano.

Fui casa e vilarejo,
fui ponte e passagem
estendido nessa margem
rodeada do seu beijo.

Fui o que fiz, pude o que quis.
Mirado no tempo, no cheiro,
nos olhos negros
e quadris.


Nota plana



Em dias que não se sabe ao certo o ponto da verdade,
é melhor se encostar em qualquer parede,
qualquer paragem.
Apagar da vista e do peito qualquer espaço de lembrança,
qualquer presságio.
As ilhas são as mesmas e o medo observa tudo.
E antes que anoiteça há sempre um ar corrido que não se contenta
em agitar os cabelos e secar os olhos.
É mais que uma cor qualquer.
Esquenta a saudade que o sol empurra nessa nostalgia carinhosa
que aperta com força o peito cansado.
Não que esse dia se extenda a mais que a sua própria natureza fraca de dia certeiro,
mas claramente ele assina na alma
a passagem densa de um aperto comedido.

E outros virão.


Linhas que deitei pra ti



Minha sorte envegonhada,
foste a rosa entre os cravos,
foste a pétala na chuva
e o belo entre os bravos.

Seja o esforço dos acordes
a cantar o nosso fim,
seja a pele e a espada,
seja rei ou arlequim.

Nem o frio glacial
nem o tempo sorrateiro
vão lavar-me da memória
o calor do amor primeiro.

És o trigo e a primavera,
és ar frio da manhã,
a saída que prospera.
És o seio e a maçã.


14 de dezembro de 2007

Veritas veritas parit



- És o mais belo, és as luz por si só. Dela vieste e nela te prospera.
És parte da minha mais pura luz.

- Mas sois tu quem joga os dados. Quem dá as cartas.

- Guardai o que digo ó Luz:
Não te levanta contra mim, tu ainda és parte do meu jogo.

- Pois então não haverás de incomodar-te caso eu blefe ...


11 de dezembro de 2007

Calendário



Por sobre as pedras e a chuva
posso ver aquele rio.
E nas margens rodeadas, girassóis.
Nos meus braços e cabelos, seus lençóis.

É manhã de pouco sol,
brisa e silêncio.
E no alto meio-dia, fome.
Se sou eu quem lhe faz falta, tome.

É tarde alaranjada
fechando aquele outubro.
Pra que o dia não se engane, lua.
Pra acalmar a minha carne, a sua.

Anoiteceu querida.
Agora é tempo de esquentar as mãos,
enganar o inverno
e falar de amor.


Pré potência



Esse verso é descabido,
é nulo e vazio,
trincado.
É rabisco.

Na roupa é nu,
no gosto é cru.
É conversa fiada,
falso azul.

Esqueça esse verso
do qual eu me empresto.
Agora ele é só
parte do meu resto.


10 de dezembro de 2007

Conjecturas



E se quiser amar, me ame;
se quiser chorar, me chore;
e se quiser mais, reclame;
se estiver dodói, melhore.

E se quiser muito, faça;
se estiver com fome, massa;
e se for domingo, praça;
se for só saudade, abraça.

E se for avó, bença;
se for desespero, crença;
e se for paixão, beijo;
e se for preciso, pensa.

Se te pedem tudo, nega;
se te dão de tudo, cega;
e se for a flor, rega;
se sempre sonhou, pega.

Se for bailarina, roda;
se passar da conta, poda;
se você quiser, quero;
e se já passou, moda.

E se forem eles, bem;
se assim não for, amém;
e se for vontade, tem;
e se for você, meu bem.

Se a gente brincasse,
e eu te esperasse,
e feito ciranda
o tempo passasse;

Nessa brincadeira eu te tocaria,
sem te assustar,
pra te congelar
antes que acabasse.


Lenta



Todo pouco de vento que sopra na pele
carrega consigo alguma coisa de dentro.
De dentro da pele.
De dentro do peito.

Leva pra longe um pedaço, uma parcela,
Um outro sopro.
Tem qualquer coisa de viajeiro,
de mercador.

E espalha noutros cantos
a essência que recolhe.
Deixa cair em outras terras,
outros ventos.

É um propósito transparente
que gela a superfície calma
dos ombros.
Transporta.

Pra que se ache,
pra que se deixe.
Pra que faça morada,
nessas ou em outras mãos.


Assimetria



Mensurada e comedida
sobe a palavra goela acima,
e arranha e grita e pulsa.
E palavreia.

Começa onde freia,
onde samba e sapateia.
Passa, pesa, ajoelha
e ainda arde palavra.

Firma as asas dos meus aviões,
descabida, despedida.
Faz que vai e depois fica,
Fecha os olhos e acredita.

Sabe palavra,
sobe palavra.
Seja o passo
ou a navalha.

Fecha o céu,
deixa o seu.
És mais ela
e menos eu.


8 de dezembro de 2007

A minha verdade



Seria a beleza dos cantos de guerra,
dos contos de Tróia,
de outro sabor.

Seria a pureza e virtude dos novos,
que vão lado a lado,
que bebem a cor.

E se fomos um dia
sal e rochedo,
luz e pecado,
ódio e amor.

Foi pela certeza,
pela poesia,
de um dia voltarmos
a ser o que for.


Poema de número incerto



Tantas mais sejam as pedras,
mais serão as forças do coração alegre
a percorrer calado
a solidão do amor-verdade.

E mesmo a madeira
quente e ressonante
ouvirá o sopro dos meus verões.

Virá junho;
virá sonho,
virei aqui falar de tudo.

Ou não virei.
Ou não virá.

Conservo ainda a distância baixa e colorida,
a firmeza sonora
e um pouco de mim.


Desventura



Eu quero a infantilidade pulando na sala.
As gotas de carinho bem branco
me arrancando outras.

Quero a beleza de te dormir
e me acordar cansado.
De te preocupar, de fazer errado.

Eu quero viver o grande amor,
perder o grande amor,
e me achar, e me chorar e me sorrir
no colo do reencontro.

Eu quero silêncio e quero vapor.
Andar sufocado do leve sabor,
e saber que é facil colher o doce
dessa terra que é um pouco minha.

Quero estar perdido e tropeçar na insegurança,
abraçar o tempo, encontrar saída.
E cançar as mãos e suar o rosto.
Viver homem e morrer menino.


Poesia primeira



Se eu chorar, não fique triste.
Se ficar,
enxuga os olhos,
resiste.

Toda tristeza tem uma fresta de alegria,
toda alegria um pouco de dor,
toda dor,
um pouco de amor.

Pode ser que você chore,
que eu demore pra sair.
Mas quando aquela gota lhe cair do rosto ao colo,
não seja mágoa nem saudade.

Lembra como foi suave aquela dor que nos doeu,
deixa escorregar um sorriso medroso.
Deixa ser assim.

E vai ser sempre bonita e nossa aquela branca dor,
aquela calçada e a flor.
A pequena-grande história:
aquele seu e meu amor.


21 de novembro de 2007

Nitidez, nuances e bicicletas



O menino era novo ainda.
Descobria o mundo a cada passo, cada queda. O seu mundo.
Um mundo talvez grande às proporções da época (também suas).
Nos arranhões e machucados foi diminuindo as grandezas,
equiparando, esgotando hipóteses.
Inesgotável.

Tomou sorvete, soltou papagaio, quebrou dente, braço e espelho.
Teve azar e sorte; se apaixonou na escolinha.
Foi triste e feliz.

E cresceu como cresce todo menino.
Foi herói, foi bicho, foi medroso.
Foi Viramundo de Sabino.
Caiu algumas vezes. Várias vezes.
Curou os arranhões e machucados das mãos e joelhos,
e descobriu que eles doem menos que os arranhões da alma.
Machucou a alma alheia.
E a sua.

Brigou,
ouviu,
esperou,
tentou,
se desculpou,
se arrependeu,
se orgulhou.

Aprendeu que todo menino cresce;
cresce pra ser homem.
Cresceu homem.
E fez a barba,
descobriu a vida,
aproveitou a vida,
fez escola e trabalho.
Desconfiou da vida.

Ganhou amigos,
pegou estrada,
tomou chuva,
tomou cerveja,
perdeu amigos...

Hoje, o menino é esse.
Esse que toma menos sorvete que deveria;
que não solta mais papagaio (mas gostaria);
Percebeu que,
ainda homem, sente medo.
Ainda cai, se levanta, chora e ri.

E assim Viramundo,
assim o mundo virou.

Mas o menino que se sabe homem,
sustenta vivo no coração o velho sorriso fácil.
O sorriso que as nuvens velozes
não conseguiram carregar pra longe,
como fizeram
com os dentes-de-leite.


18 de novembro de 2007

À vontade



Ela vem,
fica um pouco mais...
me joga um daqueles sorrisos doces, brancos.
(daqueles que sobram quando a timidez vem)

E eu assim,
vencido,
deixo passar o tempo lento.

Afinal,
o amor já me levou.


Poesia rasteira



Vou e volto,
eu e só.

Vou,
volto,
nó.

Paro, fico.
Sou e não quero mais.

Vou, verso,
e fim.


Protesto rascunho



E ainda que acabem com as flores,
que cubram de pedras minhas dores;

Ainda que possam apagar
as preces soltas
e os restos de mar.

Ainda assim,
não serei tinta a contra-gosto.

Serei antes,
letrista anônimo no amadorismo cru,
que consensualista métrico de prateleira.


Outras constantes



A saudade é um caso longo.
É uma plataforma grande e vazia num domingo de sol fraco;
e o trem não vem.
E não dói pela intensidade com que atravessa o peito,
dói pela sutileza com que se esparrama.
É a incerteza da alma, a inquietude.
Petrifica o foco e emudece a pele.

Então,
quando se sente a falta e o peito encolhe,
é aí que se revela a falha do humano.
Não porque resvala em essências estanques ou falhas de caráter.
Não.
O defeito do homem é a ausência.
É a parte intocável que mais lhe trai e conforta
(o melhor defeito);
sabe que é ela a expressão do apreço e da dependência determinada.

A saudade é o que se pretende agora,
o que imprime o anseio.
É a busca antecipada do que a promessa pôs à frente,
longe da mão, longe do chão, longe.

Mas é assim que se conservam amores,
e imagens do que pôde e pode ser a potência da felicidade.
É dela, saudade, que brota e cresce o valor.
Mas esse é outro caso,
igualmente longo.


Idílio



Quando eu cair menino amor, não quero que deite ao meu lado.
Quero um sorriso, daqueles que enchem a alma.
Quero que chova pra que eu veja as gotas caírem da ponta do seu nariz.
Quero a terra nos dedos, o branco nos cabelos.
Sal e suor.

E no fim do dia eu me levanto homem,
e poderei sorrir.

Mas vou estender a mão,
quando você e a chuva caírem
da ponta do meu nariz.


Parênteses



É passo seco na noite clara,
o fato da desmesura.

É calor e frio no sopro curto;
vento e verão.

Tinta que seca logo
e logo seca se desfaz.

Pranto que rola calmo;
varanda, porto e cais.

É sempre um sorriso largo,
tanto,
e um pouco mais.


12 de novembro de 2007

Ensaio



À conta do coração magro
que passeava despreocupado,
comprou uma asa velha
e a outra, de emprestado.

E na chuva escura do fim de outono
passaram dias e dias calados,
pra que fosse no virar do sol
mais um anjo tímido, envergonhado.